segunda-feira, 29 de junho de 2026

A PARTIDA DA POESIA (Do Futebol e Outras Literaturas)


               Além de poeta, também sempre fui goleiro (o que poucos sabem). Por ser péssimo na linha, desde garoto me sobrava somente o gol. De tanto ficar por lá, com o tempo aprendi a agarrar e a gostar disso, mas hoje em dia é raro eu jogar. Dia desses resolvi escrever um poema sobre futebol, o que jamais tentei antes. E foi justamente quando eu me dedicava a essa poesia, aconteceu algo que preciso contar. Ainda não sei ao certo se foi um sonho ou delírio. Recordo apenas do momento que alguém educadamente me tirou a atenção ao tocar meu ombro, dizendo: “Acompanhe-me por favor, temos uma partida daqui a pouco”. Era calvo e usava óculos; na hora não o reconheci, porém me era bem familiar. Na dúvida, o segui. Quando dei por mim já estava num vestiário, onde jogadores se preparavam. Demorou até eu entender quem eram aqueles ali. “Poetas brasileiros, todos falecidos”, quase exclamei. Nem tive tempo para entrar pânico, pois um deles veio em minha direção. Não tinha como não reconhecê-lo: era Carlos Drummond. Na hora suei frio. “Bem-vindo! Mário de Andrade nos comunicou que jogaria conosco hoje. Logo estaremos em campo”, disse ao me dar um uniforme de goleiro. Enfim lembrei de onde conhecia aquele homem que me guiou até lá. Tremendo, perguntei: “Sou o titular?”. Que alívio o meu quando fez não com a cabeça. “Contra quem jogaremos?”. “Uma seleção do mundo”, afirmou, notando meu nervosismo. Ele era o capitão e camisa 10. A situação piorou quando olhei ao redor e descobri que por lá também estavam Cruz e Souza, Mario Quintana, Manuel Bandeira, Paulo Leminski, Solano Trindade, entre tantos outros grandes craques da nossa poesia, inclusive mulheres, como Cecília Meirelles, a única titular. “Por que me escalaram? Não estou no nível de vocês, nem sou conhecido. Há tantos outros por aí”, insisti. Mário de Andrade foi quem respondeu: “ Disseram que és futebolista de origem, feito João Cabral e Gullar ali. Você é o único poeta literalmente goleiro que temos conhecimento. Essas coisas fazem diferença”, ponderou. “Futebol se joga com a alma”, decretou Drummond, tentando me tranquilizar. “A poesia também”, completei. Sorrimos. Mas só fiquei mais calmo mesmo quando soube que eu era apenas o terceiro goleiro. Castro Alves, o titular, o segundo, Murilo Mendes. Precisava ser muito azarado para me colocarem para jogar. Com todo mundo pronto, subimos em fila rumo ao gramado. No caminho ainda indaguei. “Morri? Por isso estou aqui?”. “Por hora não”, escarneceu Augusto dos Anjos, enquanto amarrava a chuteira. Estávamos num estádio lotado. Parecia final de Copa do Mundo. “Será que estão todos mortos?”, refleti. “Decerto! Vivos ainda, parece-me que somente tu e uma jogadora estrangeira”, disse de repente Álvares de Azevedo, a quem segui até o banco de reservas. “Tudo poeta também moço”, completou Cora Coralina. “O jeito é aguardar e apreciar o jogo”, por fim comentei com Ana Cristina César, de óculos escuros sentada ao meu lado e que nada me respondeu. “Boa tarde senhoras e senhores!”. Gritou Nelson Rodrigues num microfone, em cujos altos falantes sua voz ressoava vibrante; era o narrador da partida, tendo ao seu lado João do Rio e Eduardo Galeano como comentaristas. Ouvíamos a escalação das duas seleções. Seleção Brasileira: no gol, Castro Alves; na zaga, Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa; na lateral-direita, Cecília Meireles; na lateral-esquerda Manuel Bandeira; no meio-campo, João Cabral de Melo (como volante), Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana (mais ofensivo); no ataque Paulo Leminski (praticamente um ponteiro), Ferreira Gullar e, bem à frente, Vinicius de Moraes; técnico: Mário de Andrade. “Um timaço”, já decretava João do Rio. “No banco de reservas, o desconhecido Geraldo Ramiere é a maior novidade”, ressaltou Nelson, em tom de ironia. Nem me importei. Sentia-me orgulhoso por estar no meio daquelas lendas não-vivas. Mas quando ouvi a escalação da Seleção Estrangeira, que acabava de entrar em capo, senti um arrepio na espinha. No gol, Frederico Garcia Lorca; na zaga, Octavio Paz e Walt Whitman; na lateral-direita, Marina Tzvetáieva (também única poeta entre os titulares); na lateral-esquerda, Bertolt Brecht; no meio-campo, Charles Baudelaire (como um típico cabeça-de-área), T. S. Eliot (camisa 10 e também capitão do time) e Rainer Maria Rilke; no ataque, Pablo Neruda (na ponta-esquerda), Dylan Thomas e Arthur Rimbaud; técnico: Jorge Luis Borges. Todos poetas que eu conhecia e adorava. Tinha Nobel de Literatura até no banco de reservas. Quando Nelson perguntou o que achava da escalação, Galeano simplesmente aplaudiu. Eu estava sem palavras. Nesse momento entrou o árbitro. Era Fernando Pessoa, tendo como assistentes seus heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Os juízes reservas eram Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca. Nunca havia visto tanta gente em uma arbitragem, porém nada mais me surpreenderia depois que vi a bola do jogo: um amontoado de palavras em forma de esfera. Enfim entendi porque aquela era uma partida de poetas. “Vai começar!”, narrava Nelson. “Eles são favoritos; será um jogo duro”, pensei. “Concordo”, sussurrou-me Torquato Neto ao pé do ouvido. Nós estávamos com o tradicional amarelo; eles vestiam azul. Após o apito, o Brasil deu o pontapé inicial. A partida já começava com equilíbrio, mas tínhamos maior domínio de bola. Desde o início Drummond era o coração do time. Dele saiu a primeira jogada perigosa: um passe longo para Leminski, que rapidamente serviu Gullar, mas que bem marcado por Octávio Paz, precipitou-se e jogou por cima do gol de Lorca. A Seleção Estrangeira respondeu em seguida, com um ataque rápido. O inglês T. S. Eliot era o cérebro deles. Carregou a bola e com esmero passou para Neruda que soneta cruzado, para a ótima defesa de Castro Alves. Dylan Thomas exaltado pedia a bola. E foi no escanteio que saiu o primeiro gol: Brecht bateu de esquerda e Whitman apareceu livre cabeceando para as redes. A Seleção Brasileira não ficou abatida e a resposta veio pouco depois. Novamente Drummond parte com a bola, se livra da falta, vê Cecília Meireles sozinha à direita; ela recebe e com leveza encaminha para Vinicius, que com calma toca no canto. Instantes atrás, lá do banco, Patativa do Assaré já cantava a jogada. O segundo veio em seguida. João Cabral rouba a bola de Rimbaud, passa pra Drummond, que versando com Leminski em velocidade, rimando de primeira para Gullar: mata no peito, ajeita discretamente com a mão, e dispara como um relâmpago para o fundo do gol. “Golaço!”, vibrava Nelson Rodrigues. Os estrangeiros reclamam. Whitman protesta chamando de “sujo” o lance. Pessoa, após consultar Sá-Carneiro e seus assistentes, não vê irregularidade; Florbela parece discordar. O gol mesmo assim é validado. Baudelaire leva cartão amarelo por dizeres obscenos. O clima fica tenso, todavia a partida segue. A Seleção Estrangeira não se abala e Rilke escreve uma bela jogada: se livra de dois e envia a bola para Rimbaud em profundidade; ele ganha de Bandeira na corrida e cruza para Dylan, que com estilo faz o gol. Jogo empatado. Nossa Seleção ataca novamente. Agora Bandeira é quem parte na esquerda com calma. Quintana, até então sumido, recebe a bola, pára, pensa e chuta no travessão. A partida estava bastante balanceada até que Eliot fez a diferença. Recebeu de Baudelaire, após esse trombar com Vinicius, seguiu com habilidade, fintou Augusto, driblou Cruz e Souza, e tocou de cobertura na saída de Castro Alves, deixando nossa defesa desolada. E foi a hora do meu primeiro susto. Com o pé machucado, nosso goleiro precisou ser substituído. Murilo Mendes mal entrara e já tomava um gol: numa jogada construída por Brecht, num lance surpresa, Tsvetáieva apareceu desmarcada e bateu forte, sem defesa. No minuto seguinte Bandeira sente uma dor no tórax e também é substituído. Entra Solano Trindade. Não havia limite de substituições. Já chegávamos a quase 37 minutos, quando nosso goleiro derruba Dylan na pequena área: expulsão e pênalti. Mário de Andrade me chama, e a única coisa que me passou pela mente naquele momento foi: “- Ferrou!”. Mas não tinha outro jeito. Entrei em campo. Nem preciso falar que o clima era de total desconfiança. Nelson Rodrigues fez uma cara que já expressava o sentimento geral. “É agora Ramiere”, disse Drummond, acho que querendo me animar. Eliot é quem veio para cobrança. Silêncio absoluto. Pessoa apitou e… quando pensei em adivinhar o canto já era tarde, a bola veio alta no meio, e ao esticar os braços consegui colocá-la para fora. O capitão deles ficou incrédulo. Nem eu acreditava. Vibração total da nossa seleção e torcida. Tzvietáieva bateu o escanteio e para meu alívio Octávio Paz cabeceou para fora. Rimbaud não aguentava mais, passou mal e foi substituído por Allen Ginsberg. Bati o tiro de meta. A bola chega em Quintana: com habilidade dar um chapéu em Baudelaire quase na linha da grande área, que o atinge com maldade e é expulso. Drummond ajeita a bola sozinho, com toda calma do mundo. Sem ninguém esperar, bate de letra no ângulo de Lorca. Gol de placa. Fernando Pessoa encerra o primeiro tempo, fingindo não ouvir os lamentos de ambas seleções. Pelos altos falantes escuto elogios de João do Rio. No vestiário, Ferreira Gullar discute com o treinador e acaba sendo substituído pelo veterano Gregório de Matos, sob os bravejos de Oswald de Andrade, reclamando pra jogar. No lado adversário entraram Vladimir Maiakóvski, Paul Valéry e Gabriela Mistral, nos lugares de Dylan, Rilke e Brecht (bastante cansado). Apesar das desavenças, voltamos animados pro segundo tempo. Perdíamos apenas por um gol de diferença e o time estava mais confiante em mim. Eu nem tanto, mas disfarçava bem. Recomeça o jogo. A partida estava ainda mais disputada. Do nosso lado, na boca da área Gregório infernizava a zaga adversária; Tzvetáieva acabou levando amarelo. Do lado deles, Maiakóvisk atacando constantemente e Augusto marcava com dureza, até levar cartão também. Com um controle de bola impressionante, Drummond rima para Quintana, que rima com Vinicius, que toca pra Leminski, que com uma passe curto deixa para João Cabral chutar com firmeza de fora da área, fuzilando o gol de Lorca, que resiste e com as pontas dos dedos coloca pra escanteio. Depois disso, eu quem sofreria com os ataques. Defendi não sei como quatro chutes, sendo um de Ginsberg, que tirei com a perna. Atacávamos também, mas agora sem muito sucesso. Faltavam 20 minutos para o fim da partida, quando em nosso time entraram Paulo Mendes Campos, Hilda Hilst e Ana Cristina César, nos lugares de Augusto dos Anjos, Quintana e Vinicius (para a ira de Oswald, que não admitia permanecer no banco). Por sua vez, Borges tirava Lorca (machucado), Whitman, Tzvetáieva e Eliot (exausto) para colocar o uruguaio Mário Benedetti (para a alegria de Galeano), José Craveirinha (único africano do elenco), Matsuo Basho (o mais experiente entre todos) e Guillaume Apollinaire. Celan passou a ser o capitão. Nosso time ficou mais veloz e contra-atacávamos melhor. Foi quando, após cortar uma jogada que via para Basho, vi Solano correndo solto; lancei para ele com a mão o mais forte que pude. Disparando até a lateral esquerda, cruzou para Ana Cristina acertar uma linda bicicleta, com a bola beijando a trave antes de entrar. Empatávamos há cinco minutos do fim. A Seleção Estrangeira não desistia e ainda queria a vitória no tempo normal. Nós já estávamos meio que satisfeitos com a prorrogação. Então apareceu Apollinaire fazendo uma jogada absurda, deixando Valéry frente a frente comigo. O francês bateu com um efeito impressionante. Não me perguntem como saltei daquele jeito, mas fato é que consegui espalmar para fora. “Inacreditável!”, exclamava Nelson Rodrigues. De desconhecido para um dos heróis do jogo. Quem diria. Quando chegávamos aos acréscimos, o técnico argentino fez sua última substituição: a nicaraguense Gioconda Belli no lugar de Neruda. Galeano comentava que ela era a grande novidade na escalação. Com essa entrada, deles só não jogariam a zagueira Sylvia Plath e o terceiro goleiro Rabindranath Tagore. Últimos instantes da partida. Gioconda recebe a bola. Domina com calma. Estava muito longe do gol. Mesmo assim arrisca. O chute veio fraco e rasteiro, para pegar com facilidade. Engano meu. Repentinamente a bola escapa entre meus dedos e vai mansamente parar nas redes. Fernando Pessoa encerra a partida. 5 x 4 para a Seleção Estrangeira. Nelson Rodrigues esbravejava contra mim. Envergonhado, eu continuava no chão. Drummond veio ao meu encontro. “Não deviam ter me convocado para essa partida”, desabafei. “Mas foi você mesmo quem se convocou”, disse, dando-me a mão. “Meu amigo, todos nós aqui fomos convocados por ti e tudo aconteceu por vontade tua”, completou. Levantei-me. E mesmo sem entender direito aquelas palavras, tomei coragem e cumprimentei nossos jogadores (apenas Ferreira Gullar não quis falar comigo) e os da equipe adversária, incluindo Borges, além de Fernando Pessoa e toda arbitragem. Mário de Andrade me abraçou fraternamente dizendo: “Contamos contigo”. Nelson Rodrigues deu-me às costas, mas João do Rio e Galeano foram gentis. E após me despedir, todos partiram. Depois disso, lembro somente que retornei ao ponto de partida, voltando a tentar escrever aquela poesia, que continua no meio do caminho.


Geraldo Ramiere

Arte: pintura de Mário Zanini






GUARDA-METAS


De goleiro e louco

Todo poeta tem um pouco


No futebol da vida

Com as mãos nuas

Desde cedo aprendi

A me defender dos chutes

Adversários e imprevistos

Alguns, fogo amigo

Daqueles que jogam

Com meu coração


Já não sei quantas vezes

Fui ao fundo das redes

E depois de tantas partidas

A gente aprende que saltar

É bem diferente de cair

E com o tempo também

Aprendi a admirar a beleza

De alguns gols que sofri


Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, página 60, editora Viseu, 2021).

domingo, 2 de janeiro de 2022

Registro Fotográfico DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO DE GERALDO RAMIERE- LANÇAMENTO EM BRASÍLIA (LIVRARIA CIRCULARES) - 26-11-21

 Estas são algumas imagens do Lançamento Presencial do Livro DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO (editora Viseu) de Geraldo Ramiere, realizado no dia 26/11/21, das 19h às 21h, na livraria Circulares (CLN 13 Asa Norte, Brasília-DF). Registro fotográfico: Priscila Leite.













sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Lançamento em Brasília de DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO de Geraldo Ramiere

 


É com muita alegria que anuncio o lançamento do meu DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO na belíssima livraria CIRCULARES (113 norte, Brasília-DF), nesta próxima sexta-feira, dia 26/11/21, às 19h, onde a partir de agora meus livros estarão disponíveis (compras em pagamento com Pix ou cartão de crédito e débito). Divulguem e compareçam!
Receberemos mais um autor de Brasília para celebrar a literatura. Geraldo Ramiere lançará seu livro "Desencantares Para O Esquecimento", da @editoraviseu.
📔É o livro de estreia do autor, que reúne uma coletânea de poemas escritos ao longo de anos. Dividido em duas partes que marcam períodos de escrita distintos, com poesia e prosa se misturando numa musicalidade própria, em versos que se comunicam durante toda a obra. Ressoa intensamente sobre questões literárias, pessoais, sociais, existenciais através de variados estilos poéticos, melodias e memórias cultivadas durante uma vida inteira.
👉🏽Será dia 26/11, sexta-feira, aqui na Livraria Circulares (113 norte, bloco A).

✍Geraldo Ramiere é poeta e contista de Planaltina-DF, além de professor de História da SEDF e produtor cultural. Desde 2002 tem suas obras publicadas em forma escrita (periódicos, antologias e revistas literárias) e no meio virtual. Por várias vezes foi premiado em concursos literários e possuí o blog literário Céus Subterrâneos. Desencantares Para O Esquecimento é seu primeiro livro.


domingo, 31 de outubro de 2021

Registro Fotográfico DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO DE GERALDO RAMIERE- LANÇAMENTO EM PLANALTINA - 23-10-21

 Estas são algumas imagens do Lançamento Presencial do Livro DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO  (editora Viseu) de Geraldo Ramiere, realizado no dia 23/10/21, das 17h às 20h, no Complexo Cultural de Planaltina-DF. Registro fotográfico: Priscila Leite.








FOTOS: Priscila Leite

DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO DE GERALDO RAMIERE- LANÇAMENTO EM PLANALTINA - 23-10-21

 








LANÇAMENTO VIRTUAL DO LIVRO DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO DE GERALDO RAMIERE

No dia 23/09/21, quinta-feira, às 20h realizamos a live de Lançamento Virtual pelo YouTube do meu 1º livro DESENCANTARES PARA O ESQUECIMENTO (poemas), publicado recentemente pela editora Viseu. Nesta ocasião divulguei meu livro, com a participação poética mais que especial dos poetas Antonio Victor, Carol Araujo, Domício Chaves, Joésio Menezes, Muna Ahmad e da atriz Raquel Ely. Não perca! Aproveite e já se inscreva em meu canal. Grande abraço! Geraldo Ramiere ASSISTA A GRAVAÇÃO DA LIVE ACESSANDO:  https://www.youtube.com/channel/UC7cbSCf2s1D8UDZuUcq1uGA






SINFONIA DOS SENTIDOS

 SINFONIA DOS SENTIDOS

Misturei o barulho do invisível
Os sabores das vozes
A sonoridade dos aromas
E a aspereza do silêncio
Com a estridência do amargo
A luminosidade dos sussurros
O calor das nossas músicas
E os ecoares do seu perfume
Nesta sinfonia de sentidos
De incontáveis tonalidades
Reverberamos nos verbos
De várias suaves vibrações
Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, página 58, editora Viseu).

ALÉM DE SI


ALÉM DE SI 

                                                    Embora o espírito estremeça à lembrança                                                              e seja avesso ao pranto, começarei       Virgílio


Você veio como quem vem
Chegando já de partida
Vindo sem me dizer nada
Nem na hora da despedida
Você veio como um verso
Que ninguém escreveria
E de repente na gente nasce
Pouco a pouco em poesia
Você veio como vento leve
Que sopra quase sussurrando
Começando como brisa breve
E que logo vai aumentando
Quando se vê, vento forte vira
Então venta, venta, vendaval
Com revoltas em ventanias
Levando as vaidades do varal

Você veio sem aviso prévio
Nem como eu imaginaria
Feito uma chuva no deserto
Lua cheia em pleno dia
Você veio varrendo pra longe
Velhas verdades e feridas
Revirando pelo avesso
Respostas mal resolvidas
Você veio derretendo a neve
Nos telhados acumulando
E talvez como não se deve
Vim hoje enfim lhe revelando
Vida, vida, vem, me veja aqui
Venha comigo ser visceral
Para que possamos juntos
Inventar a nona nota musical

Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, páginas 125-126 , editora Viseu).

IMAGEM: pintura de Eugenio Zampighi 

TODOS OS LUGARES DE NENHUM LUGAR

 TODOS OS LUGARES DE NENHUM LUGAR

Mesopotâmia entre teus olhos
Atlântida imersa sob a retina
Pompéia coberta pelas cinzas
Destas tardes entristecidas
Tenochtitlán perdida nas ruínas
Das nossas cartas esquecidas
Constantinopla caindo invadida
Nos vazios de toda rotina
De Akhetaton a Brasília
De Pérsepolis a Planaltina
Às margens do Ganges
Do Amazonas ou do Nilo
Habitamos esquecimentos
Que nos ocupam em surdina
A memória é um monumento
Em uma cidade desconhecida
Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, páginas 66 , editora Viseu).
ARTE: pintura de Jacek Yerka

LIBERTÁRIA



LIBERTÁRIA

A poesia quer é estar nas ruas
Manifestar, gritar sem ordem
Sair dançando pelas avenidas
Rir pelos bares, ébria em bocas
Intensa, livre e libertária
Controversa e aversa às doutrinas
Versada em línguas soltas
E palavras desregradas
A poesia a ninguém pertence
Sendo somente dela mesma
É feminina, feminista e forte
Sabendo sangrar ao renascer

Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, páginas 27 , editora Viseu). 

O DESERTO DENTRO DO MAR

 

O DESERTO DENTRO DO MAR

"Cultivar o deserto/ como um pomar às avessas."
João Cabral de Melo Neto

Neste exílio em mim
Pelas areias do tempo
Olho para trás e reparo
Pegadas que meus pés
Descalços e cansados
Já não se lembram mais

À procura daquele navio
Há tantos anos afundado
Afoguei-me no imenso vazio
Do despejar das minhas águas
Explorando o deserto que sempre
Esteve dentro do meu mar
Andarilho da minha aridez
Encontrei lembranças, ossadas
E o sal das noites em lágrimas
Que eu não mais chorei

Após descobrir outros naufrágios
Que nem sabia que existiam
No meio de tantos destroços
Encontrei o que buscava

A partir desse momento me permiti
Fluir imensurável outra vez
E o deserto voltou a ser mar

Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, páginas 95 , editora Viseu). 

A DUQUESA DO AGRESTE E O MARQUÊS DO POMBAL

 Um cordel planaltinense inspirado em Romeu e Julieta.


A DUQUESA DO AGRESTE E O MARQUÊS DO POMBAL
"Só ri das cicatrizes quem nunca foi ferido."
William Shakespeare
Dizem as lendas que lá pelos sertões
Na antiga distante cidade de Planaltina
Entre os paralelos do Planalto Central
Uma guerra atormentava há gerações
Disseminando ódio além do que se imagina
Sem distinguir quem era do bem ou do mal
Num conflito entre duas diferentes regiões
Em que os inimigos faziam do medo rotina
De um lado o Agreste, do outro o Pombal
Não havendo lugar para paz ou perdões
Pois a cada vingança era uma nova chacina
Mesmo ninguém se lembrando do tiro inicial
Todavia, é o improvável que une os corações
E onde ódios ecoam, o amor surge em surdina
Nos trazendo a narrativa que conto sem igual
No bairro do Agreste, em meio às privações
Criou-se Dulce, dona de uma beleza nordestina
Que muito jovem manteve relação matrimonial
E seu esposo, conhecido como um dos barões
No tráfico foi morto, deixando-lhe viúva menina
Com uma filha pequena, sem qualquer capital
Sendo assim, ela decidiu assumir entre patrões
A posição do marido no comércio de cocaína
Tornando-se a Duquesa, vivendo o mundo real
E era jogando futebol desde garoto nos terrões
Que Marques aprendia o valor de sua melanina
Driblando preconceitos e a desigualdade social
Antes de seu tio matarem, dele era um dos aviões
Assumindo depois a boca da família e sua sina
Chamado agora Marquês, um traficante de moral
E ambos por pertencerem a diferentes facções
Mesmo sem se conhecerem, na rixa assassina
Eram rivais jurados por uma sentença fatal
Mas sucedeu que o acaso, ser dos mais foliões
Logo juntou esses dois num dia de festa junina
Num lugar que para aquele conflito era imparcial
E foi justamente numa barraca de quentões
De frente à Igreja Santa Rita, em noite libertina
Que a Duquesa e o Marquês se viram afinal
Ninguém sabe dizer como nascem as paixões
E nenhum deles poderia explicar patavina
De como surgiu aquele desejo tão abissal
Beijaram-se, sem imaginar as implicações
Desse encontro e daquela felicidade felina
Que terminaria em mais um resultado fatal
Quando os amigos viram, houve discussões
Acabando em tiroteio no meio da esquina
E mortes de ambos os lados, um desastre cabal
Era certo que haveria ainda mais retaliações
E Marquês e Duquesa em revanche repentina
Planejariam um pro outro a emboscada mortal
Semanas depois, fingindo suas reais intenções
Marcaram um encontro nos arredores da colina
Do Morro do Centenário, na Pedra Fundamental
E com receio dos X9s traiçoeiros e espertalhões
Encontraram-se em segredo, sozinhos na neblina
Armados e prontos para darem o disparo letal
Mas eles não conseguiram segurar as emoções
E no carro da Duquesa, sem som nem buzina
Fizeram amor, acordando noutro dia como casal
Desde então, juntos fugiram de todas as punições
Indo com a filha morar pros lados de Cristalina
Para nunca mais retornarem ao Distrito Federal
E voltaram a ser Dulce e Marques, sem ambições
Vivendo dias felizes, agora com a neta Marina
Até hoje apaixonados na parceria mais leal
E após tantos anos, continuam as conflagrações
Com muitas outras incríveis histórias clandestinas
Que iguais a este cordel, não aparecerão no jornal
Geraldo Ramiere (do livro Desencantares Para O Esquecimento, páginas 111-113 , editora Viseu).
IMAGEM: xilogravura de Rogério Fernandes

A PARTIDA DA POESIA (Do Futebol e Outras Literaturas)

                  Além de poeta, também sempre fui goleiro (o que poucos sabem). Por ser péssimo na linha, desde garoto me sobrava somente o...

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