terça-feira, 16 de junho de 2020

OITO VIDAS


IMAGEM: pintura de René Magritte (editada)

Já era tarde. Fazia frio na ponte. Quando estava pronto para se jogar, ouviu um barulho próximo. Seguiu o som. Queria saber o que era. Na margem encontrou a caixa de papelão com os gatinhos dentro. Sete filhotes, todos pretos. Começava a chover. Foi embora levando-os consigo. Cuidaria deles. Ninguém iria morrer naquela noite.

Por Geraldo Ramiere

ESTÁGIO IMAGINAL

No âmago do imago
Imaginávamos que

A metamorfose fosse
A última das fases

De tudo que nos alimenta
Entre néctares e flores
É justamente o decomposto
Que nos sustenta

Sentimentos vastos
Desejos, decepções, dilemas
Ao bater das asas
Transformam-se em poemas

Certa vez uma borboleta
Pousou em meus dedos
Apenas agora percebi
Que ela permanece nas mãos

Respirar é recomeçar

Geraldo Ramiere


IMAGEM: Pintura de Cristian Schloe

AO DESFOLHAR DAS VORAGENS

Outono nos mostra

Dissecada a sede
De nós sobra
Lembrança e saudade

Devorava tantas flores
Mastigava jardins inteiros
E ainda assim não notava
Suas próprias primaveras

Dentre adentros
Raízes, cicatrizes
Gravetos pisados
Folhas sobre o caos
Recolher-se, por agora
Crisálida semente
Para se colher depois
Novamente

No grito que muda
Marcas de dentes

                                                                  Geraldo Ramiere

segunda-feira, 15 de junho de 2020

BORBOLETAS NA ESCURIDÃO


ARTE: pintura de Cristian Schloe

A luz apagou quando voltava pra casa sozinha. Comércio fechado. Rua deserta. A única saída era continuar andando. Pouco depois ouviu passos rápidos. Olhou para trás. Só conseguia vê que era alguém alto. Na dúvida, pegou o canivete dentro da bolsa. Os passos aceleraram em sua direção. Suor frio no calor da noite escura. Teve coragem para olhar novamente. Agora enxergava melhor. O coração enfim se acalmou. “Nossa, que alívio, outra mulher!”. Quase gritaram ao mesmo tempo. A travesti segurava uma lâmina também. Prosseguiram juntas, de braços dados. Descobriram que eram vizinhas.

Por Geraldo Ramiere




MULHERES NAS RUAS


E as ruas se rebelaram
Não aceitavam mais os nomes
Que os homens lhe deram
E assim, ao invés de serem
Generais, presidentes e doutores
Santidades, donas e princesas
Ou datas e números apenas
Cada rua começou a se chamar
Pelo nome que queria
E por todas as cidades
Anas, Joanas, Sabrinas
Marianas, Marielles, Marinas
Danielas, Dandaras, Carolinas
E inúmeras outras femininas
Chamaram-se e saíram
Juntas, de braços dados
Lado a lado pelas avenidas

Geraldo Ramiere

Imagem: performance urbana, Coletivo PI.

SOBREVIVENTE

                                
                                                             IMAGEM: arte de Anja Stiegler

Quando a barragem se rompeu, ela era a única que não estava na casa em que moravam. Onde antes ficava, agora havia somente lama. Mesmo sendo proibido, voltou lá sozinha outra vez. Passado mais de um mês, toda a família continuava desaparecida. Ao vasculhar os escombros, começou a chorar. Olhando para baixo, percebeu suas lágrimas sobre algo parecendo vidro. Um porta-retratos. Naquela foto a lembrança de todos. Apertou-a contra o peito. Sobreviveria por mais um dia.
                                                                                              
  Por Geraldo Ramiere 

domingo, 14 de junho de 2020

PASSO

No intervalo entre
O derradeiro e o novo caminho
Sento às margens dos dias

E do rio que tem meu nome
Descalço-me do cansaço
E em suas águas
Lavo meus pés como quem
Lava os pés de seus discípulos
Hoje olho para ontem
Com o mesmo olhar
Que enxergo o amanhã
Sem mais pesos nem pesares
Preparo o próximo passo
Com a leveza dos que se perdoam
E a certeza de quem é perdoado
Ao passar pela poeira das estradas


Geraldo Ramiere





PARTE A PARTE


Muro-me, e desço

Num pedaço o endereço
Desconheço é a direção
Deste lado desapareço
Do outro, um recomeço
Mereço toda atenção

À meia-noite de algum meio-dia
Há meia hora de qualquer estação
Meio tonto, meio sem meios
No meio-fio da contramão
Pelo caminho tons e termos
Luz, lua, idade e irmão
Volto, e volta e meia
Na tua meia-taça bebo a ilusão

Perto de toda partida
E da próxima improvisação
No aperto do teu pertencimento
Metros e meio de solidão
Com metade da meta me meto
Neste mato seco ou num mata leão
Com a outra arremates cometo
Maria Madalena com pedras na mão

Parto-me, e esqueço
No encalço do que ofereço
Preço pago em prestação
De um lado padeço
Do outro amanheço
Onde passo permeio o coração

Geraldo Ramiere



IMAGEM: Arte de M. C. Escher.

“O ÚLTIMO CARNAVAL DO MUNDO”


Vou tirar a máscara da cidade
Para descobrir se ela é você
Ou se ainda sou apenas eu
Sem saber qual rua seguir
Hoje tive uma visão
Prevendo que nossa paixão
Iria chegar ao fim
Vou usar a máscara da cidade
Para dela me disfarçar
Entre becos e avenidas
Escondendo-me de mim
Danço passos que não tenho
Como um velho casarão
Que insiste em não ruir
Vou guardar a máscara da cidade
Junto com o calendário
Num embrulho de papel crepom
Chamem o maestro
E os anjos trompetistas
Chamem a princesa maia
E o pierrô lunar
Vou dar minha máscara pra cidade
Para comigo ela se confundir
Para através dela me enxergar
Chamem o profeta
E a última colombina
Chamem os embriagados
E a nossa alucinação.

Geraldo Ramiere

ARTE: pintura de Heitor dos Prazeres

sábado, 13 de junho de 2020

QUILOMBOLA

Em mim habitam quilombos
Fundados por aqueles

Que eu escravizava
Meramente por terem
A mesma cor negra
Das noites negadas
Que eu tanto temia
Fugidos das minhas senzalas
Escapando de meu engenho

Aos meus arredores
Enviei meus capitães do mato
E emissários da morte
Mas como de nenhum deles
Houve notícia ou regresso
Eu mesmo, sozinho
Enveredei-me armado
Pelas matas, em busca
Desses quilombos

Porém, ao chegar
Acabei surpreendido
Ao invés de luta
Receberam-me com festa
Dizendo-me que finalmente
Eu estava liberto
Ao invés de escravos
Encontrei batuques
Cangomas e congos
Origens e orixás
E ao invés de recapturar cativos
Eu que fui cativado
Desde então habito
Em cada um dos quilombos
Protegendo nossas terras
Com todo orgulho por ser
Quilombola de mim mesmo

Geraldo Ramiere


   Imagem: Arte em Barro de Comunidade Quilombola de Muquén - União dos Plamares - Alagoas

sexta-feira, 12 de junho de 2020

LÁBIOS CERRADOS

Este sol escarlate
Pronuncia em minha boca
Palavras ardentes

Deixando-me na língua
Sílabas áridas
De um poema poente

E seca pelo verbo
Úmido do teu beijo
Espera feito semente
Para em versos brotar
Por entre rachaduras
Poéticas nascentes

Meus lábios cerrados
Sem que percebam
Movem-se lentamente
Vivos, vastos e entreabertos
Mesmo após queimados
Ao emudecer do que se sente

Geraldo Ramiere



     IMAGEM: pintura de Vladimir Kush (editada).

PELA PELE


PELA PELE 


Desses latifúndios de prazeres
Cercados por farpadas epidermes
Invadamos juntos e sem medo
Suas devolutas intenções

Pele a pele, pêlo a pêlo
Descobrindo vontades sob o degelo
Pela pele, pelos poros
O que não se consegue apagar

Quero quereres líquidos e vários
Quero-lhes livres, quero-lhes vastos
Simples, complexos, breves, itinerários
E se eu quiser, chamarei isso de amor

Quero o que queres, e se me quiseres
Tudo que quisermos será normal
Pois nosso desejo é desejo de desejo
Sem raça, gênero, número ou grau

Geraldo Ramiere

segunda-feira, 8 de junho de 2020

EM TEU OLHAR ADENTRO


EM TEU OLHAR ADENTRO


Há algo em teus olhos
Tenha calma
Não se mexa
Deixe-me ver
Porque pode ser
Um cisco
Um inseto
Um grão
Ou então
Uma lágrima
Um medo
Uma desilusão
Ou talvez
Seja apenas eu
Caído, perdidamente
Em teu olhar

Geraldo Ramiere

O ASTRONAUTA QUE NÃO SABIA ANDAR DE BICICLETA -

       

 Hoje, mesmo sendo domingo e ainda por cima férias, Mamãe me acordou cedo. Protestei, enrolei, só que não adiantou nada. É porque tenho que me arrumar para receber meu tio. Nunca o vi, tirando várias fotos antigas dele com meu pai e umas comigo quando eu era bebê. Achei graça quando fiquei sabendo que o nome dele era Júnior. Já tinha ouvido falar de Tio-Avô, mas de Tio-Júnior foi a primeira vez. Tô vendo a hora de me aparecerem com um Tio-Neto, um Tio-Primo ou até um Tio-Irmão. Família é sempre engraçada. Papai e Mamãe falaram que ele vai ficar as férias inteiras com a gente. No começo não me animei tanto. Afinal é um tio que eu nem conheço de verdade. Como a gente pode gostar de alguém que a gente não conhece? E o tempo que a se é bebê não conta. Só me empolguei quando fiquei sabendo de quê ele trabalhava. Na hora nem acreditei. Meu tio é astronauta! Tinha minhas dúvidas até um tempinho atrás. Aí vi sua foto no jornal numa Estação Espacial, com traje, capacete e tudo mais. Por isso ficou tanto tempo longe e só vou conhecê-lo direito agora. Ele vai chegar na hora do almoço. Papai foi buscá-lo no aeroporto. Será que ele joga bola?
          Meu tio chegou. Parece muito com Papai. Só que mais magro. Me deu um abraço com barba, falou que cresci muito, já sou quase um rapaz, essas coisas que tios sempre dizem. Ganhei dele uma espaçonave de brinquedo com o nome da NASA. Muito legal. Ponto para meu Tio-Júnior. Mais tarde a gente sentou na varada para conversar. Então o tio começou a contar sobre suas viagens espaciais. Claro que eu não parei de perguntar. Disse que na Estação Espacial é bem legal, só que eles trabalham muito e quase sempre ficam consertando satélites. Falou sobre o Sol, a Lua, planetas, estrelas, meteoros, galáxias, nebulosas e um monte de coisas que eu nem imaginava que existiam. Contou como era viver no espaço, da tal gravidade zero que faz a gente levitar, o que comiam lá e como fazem para tomar banho. Das dores e tonturas que sente quando vai e chega do espaço, do friozinho na barriga toda vez que o ônibus-espacial decola e pousa. Também falou de como foi difícil virar astronauta, só que como era seu sonho, desde quando tinha minha idade, ele nunca desistiu. “Minha cabeça sempre esteve acima das nuvens”, disse, rindo. Papai concordou, rindo também. “E você? Quais são seus sonhos? Do que você gosta?”, perguntou pra mim. Aí foi minha vez de contar. Que eu ia ser jogador de futebol do meu time de coração. Falei da minha escola, dos meus colegas, dos meus professores, dos desenhos e personagens que mais gosto e de um tanto de outras coisas. E cada noite meu tio contava suas aventuras espaciais e depois eu contava as minhas, terrenas mesmo. Mamãe e Papai também contavam as deles. Era muito bacana. E durante o dia a gente sempre brincava de alguma coisa. Futebol (pra minha surpresa, descobri que meu tio era goleiro, inclusive foi o melhor da sua escola, dizendo ele), basquete, pingue-pongue, soltar pipa, rodar pião, vídeo-game, dominó, xadrez (o tio me ensinou, achei chato no começo, mas agora até tô gostando) e um tantão de jogos e brincadeiras. Quase sempre tinha mais alguém se divertindo com a gente. O Vô e a Vó, meus outros tios e primos . A gente se divertia muito o dia todo.
            Já tinha umas duas semanas que o Tio-Júnior tava com a gente quando aconteceu. Foi um dia depois do nosso acampamento no quintal. Batíamos bola, eu, meu tio e a Mamãe, enquanto Papai fazia o almoço. Nosso cachorro, sem a gente ver, mordeu a bola e a furou, acabando com nosso jogo. Aí peguei minha bicicleta e chamei o tio e Mamãe para andarmos juntos. Achei estranho quando ele ficou meio nervoso e um pouco vermelho, dizendo que não tinha trazido nenhuma bicicleta. Falei que ele podia pegar a do papai. De repente Tio-Júnior disse que tinha que ir ao banheiro. Ficou lá um tempão. Não entendi nada. Depois que escureceu, antes do jantar, Papai e Mamãe foram lá no meu quarto. Me explicaram o problema com meu tio. Tio-Júnior não sabia andar de bicicleta. Na hora até tentei segurar, só que não consegui deixar de rir. Mamãe brigou comigo. Papai riu também. Depois me disse que sempre fazia piadinhas com meu tio sobre isso, e ele nunca se importou. Talvez tenha ficado com vergonha por minha causa. “Ninguém nunca ensinou o tio a andar de bicicleta?”, perguntei. Ele nunca quis aprender, respondeu Papai. Falava que não gostava de bicicletas, que preferia outras coisas, queria era ser astronauta. “Papai, por que o senhor ou a Mamãe não ensinam pra ele?”, perguntei de novo. Me responderam que seu um dia o Tio-Júnior pedir eles ensinam, mas só se ele quiser. Mamãe e Papai me falaram também que isto era um segredo de família. Apesar de ser normal, que havia muitos outros adultos que também não sabiam andar de bicicleta, eu não podia contar pra ninguém sobre isso, nem para meus melhores amiguinhos, porque o tio podia ficar chateado. Mesmo não entendendo direito porque tanto segredo, prometi guardá-lo.
          Dois dias se passaram. Ninguém se lembrava mais daquilo. Era sábado de manhã. O tio tinha comprado uma bola nova pra gente e estávamos jogando futebol. Papai tinha ido passear com o cachorro e Mamãe foi à padaria. Só ficamos nós dois. De repente, falei pro tio: “vou ali rapidinho pegar uma coisa para mostrar pro senhor”. Tio-Júnior levou um susto quando cheguei com a bicicleta do Papai, ficando mais assustado ainda quando eu disse: “pode deixar que te ensino, tio”. Na hora ele ficou sem graça, falou que não andava de bicicleta porque este era um veículo ultrapassado e, além do mais, era perigoso para astronautas andarem num troço assim, inclusive num dia desses um caiu enquanto pedalava e se machucou tanto que foi não pode ir a uma missão, e não sei o que mais. “Tio-Júnior, sei que o senhor não sabe andar de bicicleta, deixa eu te ensinar, porque aí a gente pode pedalar juntos; não tem perigo e prometo que não conto para ninguém que estou te ensinando, até o tio aprender”, disse apenas. Ele resmungou, mas acabou concordando. Subi na minha bicicletinha primeiro, mostrando como mexer com os pedais, o guidom e os freios. Falei então pra ele subir na do Papai e fazer a mesma coisa. Tio-Junior subiu confiante, só que logo na primeira pedalada perdeu o equilíbrio e levou um tombo feio. Dessa vez segurei o riso. O tio tentou mais umas três vezes. Foram mais três quedas. Na última, me disse: “não levo jeito para isso não meu filho, meu negócio não é no chão, é bem acima dele”. Pedi para ele tentar mais uma vez e “não peço mais”, prometi. Tudo bem então. Lá vai meu tio em sua última tentativa. Sobe na bicicleta. Mexe nos pedais. Começa a andar. Por enquanto está indo bem. Dá uma voltinha. Ah, não! O tio perdeu o controle! “O freio!”, gritei. Essa não! No jardim da mamãe não! Pa! Pa! O tio caiu bem em cima da roseira que estava dando flor. O tio, mesmo se espinhando todo, não teve nenhum ferimento grave. Pelo menos nada que o impeça a ir para uma nova missão espacial. Não posso dizer o mesmo da bicicleta do Papai e da roseira da Mamãe. Falando neles, os dois acabaram de chegar. Levei bronca. Eu devia ter cuidado melhor do meu Tio-Júnior. Ele deve ser um ótimo astronauta, só que não leva mesmo nenhum jeito com bicicletas.
        As férias estão acabando. Sábado passado fiz aniversário. A festinha foi aqui em casa mesmo. Tava minha família toda. Meu tio me deu de presente o capacete de astronauta que usou na última viagem ao espaço. Centésimo ponto para o tio. Ele vai embora hoje. Vai voltar para casa dele, em outro país. Em breve irá de novo para a Estação Espacial. “Algumas pessoas são melhores com as estrelas”, disse ele, ao me contar uma última estória espacial, mas que acabou não terminando. “Conto o final quando eu visitar vocês de novo”, disse. “Vamos nos falar por e-mails”, pedi. Ele prometeu que sim, e que também vai me escrever cartas, e que irá mandar meu presente de aniversário do ano que vem pelo correio. Meu deu um abraço forte, dessa vez sem barba, e foi para o aeroporto com Papai, que também chorava muito, feito a Mamãe. Vou sentir a falta dele, mas concordo que cada pessoa tem um lugar que combina com ela, e do meu Tio-Júnior é realmente acima da Terra. Amanhã as aulas começam. Vou aproveitar para jogar vídeo-game de tarde até a noite. Como estou triste, sei que meus pais vão deixar.
Tem quase um ano que meu tio foi embora. Ele já está há três meses no espaço. Troquei várias cartas com ele e também nos falamos pela internet. Só que não é a mesma coisa. Espero que o tio volte logo. Quero ouvir o final daquela última estória e conhecer suas novas aventuras siderais. Hoje é meu aniversário de dez anos. Mamãe me acordou cedo, mesmo sendo domingo e finalzinho das férias. Pelo menos é por um bom motivo. Chegou um pacote do correio pra mim. É do Tio-Júnior. Dentro do envelope tem um telescópio com uma carta e uma foto. Na carta o tio diz que o telescópio era dele, e agora é meu, para vê-lo nas estrelas. Adorei o presente, mas confesso que o mais legal é a foto. Meu tio na Estação Espacial, conduzindo sabe o quê? Uma bicicleta! Na verdade, levitando nela, sem gravidade. Nem imagino como ele conseguiu levar uma dessa escondida pra lá. Atrás da foto está escrito: “Meu querido sobrinho. Esta é para você que me incentivou a aprender a andar de bicicleta. Eu aprendi do meu jeito. Meu próximo sonho agora é pedalar na lua. Quero ver uma foto sua em breve, como um grande jogador do seu time do coração. Nenhum sonho é impossível de realizar, desde que se acredite nele. Abraço forte! Seu Tio-Júnior”. Eu não poderia ter recebido presente melhor. Hoje à noite já vou usar o telescópio. Irei escrever uma carta pro tio amanhã mesmo. Só não sei se vou contar pra ele que não tenho mais certeza se quero ser jogador de futebol. Estou pensando em ser médico, pianista, arquiteto, ou até mesmo astronauta. Ainda tenho muito tempo pra decidir isso. Daqui a pouco será minha festa, aqui em casa de novo. Papai alugou o pula-pula outra vez. Vou me encher de brigadeiros.

Por Geraldo Ramiere - este foi meu primeiro conto infantil, premiado em concursos literários e publicado em antologia.




LEMBRANÇAS FUTURAS

Queria colher uma flor que não fosse de plástico
E comer alguma fruta apanhada da árvore
Como vejo nas imagens deste supercomputador

Trocaria todo este aparato tecnológico
Eletrônico, informático, sintético, cibernético
Por um simples banho de mar ou cachoeira
Até mesmo de chuva, sem ser intoxicado
Do jeito que meus avós falavam que faziam
Quando eram crianças pequenas

Queria que este poema se transformasse
Em algum tipo de máquina do tempo
Para me transportar há décadas atrás
Nem que fosse por um instante
Onde eu diria a qualquer pessoa presente
Num desabafo, tudo que sinto
E que ao mesmo tempo eu pudesse
Sentir o cheiro da grama verde
E respirar um pouco de ar ainda não impuro
Igual aos sonhos que sempre tenho

Queria poder me lembrar de coisas
Como o coro de pássaros em revoada
Caminhar com os pés descalços na terra
Ou de um pôr-do-sol, sem radiação
Na minha memória, feito hologramas
As muitas únicas imagens que tenho
São de rótulos, marcas e propagandas
Que conto para meu amigo robô

Geraldo Ramiere



     Arte: Matt Dixon

sábado, 6 de junho de 2020

DE PRECES E DESPEDIDAS





DE PRECES E DESPEDIDAS


Se for dizer adeus
Por favor avise
Que nada disso existe
Que tudo é invenção

Mande um recado
Algo bem abstrato
Sem qualquer explicação

Chore ao ir embora
Embora não haja pra onde ir

E se despeça por mim

Geraldo Ramiere

QUANDO ESCURECEMOS

A noite não nos dissolverá desta vez
Antes que ela nos mastigue
E nos engula, sem que percebamos

A prenderemos entre os dentes
E a faremos correr em nossas veias
Antes que desperte e descubra
Que roubamos sua cor
E agora somos negros
Somos todos negros

A noite não nos dissolverá desta vez
Cobertos por sua pele
Vagaremos em suas entranhas
Enveredando seus caminhos
Nossos olhos como luas
A observar os amantes
Feito gatos e aves noturnas
Como se fossemos
Um samba ou um blues

A noite não nos dissolverá desta vez
Pois agora seremos nós
A bebê-la, gole a gole
Mas é preciso ter cuidado
Há navios negreiros
Cruzando as madrugadas
Enquanto escurecemos
Mesmo quando é meio-dia
Se for mesmo dia


Geraldo Ramiere



     Arte: pintura de Cristian Schloe

O EVANGELHO SEGUNDO AS FLORES


                                                    IMAGEM: pintura de Vladimir Kush


Verticílio I – No princípio era uma flor. Brotando do imenso vazio, floresceu cósmica na forma de universo, feminina/masculina, fecundando a si mesma. Dela explodiram infinitas outras supernovas flores de galáxias, das quais foram florescendo inumeráveis nebulosas e estrelas, até florirem planetas de cores e particularidades várias, feito todas as flores que surgem desde então.


Verticílio II – Não é por o universo ser a nossa imagem e semelhança que nós flores devamos nos considerar seres especiais ou mais importantes que os outros. Sabeis que é o oposto. Somos conscientes da nossa simplória existência e necessidade que estejamos em contínua conexão com toda natureza.

Verticílio III – Quando surgiram as primeiras flores, havia duas que apesar de serem aparentemente iguais e terem nascido do mesmo caule, eram na verdade bem diferentes: uma curativa e a outra venenosa. Com o tempo, dividiram-se e geraram diferentes descendentes. Desde então, todas nós flores e todos os demais serem possuem dentro de si essa dupla essência. Qual espécie de flor que irá se desenvolver, dependerá da forma que cada um se cultiva interiormente.

Verticílio IV – Todos os seres são flores em essência. Por isso estamos intrinsecamente conectados. Sem os demais seres nós flores pereceríamos, e eles sem nós certamente não sobreviveriam. Floresceis em verdade e a verdade vos florescerá.

Verticílio V – As flores são todas iguais perante a si próprias, em suas diferenças e singularidades. Nenhuma flor é mais importante que outra, da maior a menor, da mais esplendorosa a mais simples, da mais bela à mais desgraciosa, todas as flores se completam em suas diversidades.

Verticílio VI – As pétalas são apenas uma das partes das flores. Muitas de nós nem pétalas possuem, e nem por isso deixamos de ser flores. O único estigma que aceitamos é aquele que nos liberta e germina.

Verticílio VII – Da mesma forma que lagartas transformam-se em borboletas, algumas flores se tornam frutos. Essas não se consideram melhores que as demais flores, mesmo as que habitam no mais alto das árvores. Elas sabem que em breve voltarão ao mesmo solo de onde vieram. Tu és flores e às flores retornarás.

Verticílio VIII – Os ventos que muitas vezes varrem as flores para longe, são os mesmos que espalham suas palavras. O pólen é a linguagem das flores. Quando dialogamos com às ventanias, espalhamos nosso verbo.

Verticílio IX –. Somente amando outros seres que as flores conseguem amar a si mesmas. Ao amar pássaros, insetos e até mesmo morcegos, nosso amor é transportado para além de nós. Mas nem todos são merecedores dele. É preciso antes que sejamos cativadas, para que nos abramos e deixemo-nos tocar. E também precisamos conquistar amores, com nossas seduções de néctares e perfumes. Muitas vezes é beijando beija-flores e namorando abelhas que nosso amor é semeado. Amai-vos uns aos outros como as flores amam.

Verticílio X – Toda flor sabe-se breve e aguarda tranquilamente o momento de ser colhida. Tristeza para as flores é morrer esquecida, arrancada para o chão. Se puder escolher, decerto toda flor desejaria viver seus últimos dias perfumando algum lar, enfeitando cabelos, declarando amores, decorando casamentos, nomeando uma nova criança, sendo a saudade de alguém. A verdadeira morte para uma flor é não ter propósito algum.

Verticílio XI – Para que possa haver primavera, é preciso primeiro que tu floresças em teu interior, para que desabroches pouco a pouco, aflorando lentamente, de dentro para flora. A estação das flores é a inflorescência de todo dia.

Verticílio XII – Como todo universo são flores, tudo que brota nos céus, cedo ou tarde brotará também na terra. Assim, certa vez o sol desta galáxia sorriu ao ver surgir sobre os campos uma flor, a sua imagem e semelhança. E ao sentir que aquele astro brilhante no céu, era seu reflexo na terra, a própria flor começou a se chamar Girassol. Por ser tão radiante, outras flores a admiraram e a seguiam, outras até a invejavam. Mas o Girassol já nasceu com a sabedoria para entender que apesar de único, não era superior a nenhuma outra flor. Ensinava justamente que as flores deveriam se amar umas as outras, amando todo o universo por ele mesmo também ser uma flor, para que desse modo tudo florescesse em harmonia. Porém um dia, o Girassol simplesmente disse que precisa se despedaçar, para se juntar a seu criador, sendo que na verdade os dois eram um só. Foi quando sob a luz do meio-dia, o Girassol entregou-se aos raios solares, encerrando aquela sua existência. Naquela época as outras flores não entenderam o porque disso e até hoje a maioria tenta ainda compreender tudo aquilo. Sabe-se, contudo, que após partir, o Girassol deixou suas sementes. Surgiram assim, por vários lugares, muitos outros outros girassóis, semeando sóis por toda terra, sob a luz de todas as flores.

Por Geraldo Ramiere

A PARTIDA DA POESIA (Do Futebol e Outras Literaturas)

                  Além de poeta, também sempre fui goleiro (o que poucos sabem). Por ser péssimo na linha, desde garoto me sobrava somente o...

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